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A primeira recuperação escolar a gente nunca esquece!

 

Este ano de 2015 foi um ano “lutado”, viu! Tanto eu, quanto as crianças, sentimos o impacto do “furacão 2015”, que revirou as nossas vidas, trouxe mil novos desafios e abalou até a vida escolar do Pedro, dando de presente a primeira recuperação escolar da vida dele!

Ele, que estava na segunda série do ensino fundamental I, começou o ano se assustando com a nova rotina de lição de casa todos os dias, provas bimestrais, trabalhos, apresentações e no segundo semestre, sofreu o susto e o medo do bullying escolar (depois vou contar melhor aqui) e no final do ano, ganhou “de presente” uma prova de recuperação de matemática.

Antes de contar pra vocês sobre esta “aventura” do Pedroca, deixa eu falar sobre escolas, métodos de avaliação e o que eu penso sobre tudo isso…

Na minha escola “ideal”, as crianças não deveriam passar nunca pela pressão de fazer estas provas tradicionais de múltipla escolha em que, na maioria das vezes, ao invés de aprenderem, elas simplesmente decoram as respostas certas, sem saberem exatamente o que aquilo ali significa.

No meu mundo “ideal”, as escolas e professoras fariam avaliações diárias, respeitariam o ritmo das crianças e as apoiariam a desenvolver aquelas matérias ou habilidades em que demonstram maior interesse ou curiosidade. No meu mundo ideal seria assim, mas na prática, não é!

Você pode até me dizer que existem escolas e métodos assim, e existem mesmo mas, também existem 2 outras verdades: as escolas mais “liberais” que aplicam o método montessori ou waldorf à risca, custam muito mais do que eu poderia pagar e outra coisa, ao avaliar os prós e contras de manter meus filhos em escolas “liberais” ou tradicionais, tive que optar pelo “menor dano” e encontrar alguma coisa que estivesse “no meio do caminho”.

Eu explico…

A escola dos meus filhos é uma escola construtivista, por teoria, super liberal e “desprendida” das tradições escolares. Além disso, ela também é adepta de algumas práticas do método montessori durante a educação infantil, seguindo a linha de raciocínio no método de ensino e avaliação de Maria Montessori, que ensinou a respeitar as individualidades e desenvolvimento de cada criança, integrar as idades, capacidades e deixar as crianças descobrirem “sozinhas” a vida prática e como as coisas funcionam.

Porém, apesar de ser uma escola que começou fundamentada nestes princípios, os pais (acreditem ou não) à partir da primeira série, começaram a cobrar da coordenação pedagógica alguma coisa mais “palpável” para ter certeza de que seus filhos estavam progredindo na vida escolar.

Eu sinceramente, sou capaz de compreender um pai/mãe que deseja que a escola dê respostas sobre a evolução de seus filhos, eu compreendo você “cobrar” por aquilo que está pagando, eu compreendo você não ter tempo para estar “em cima” da criança e checar todos os dias o que ela aprendeu de novo mas, desculpem, entender não é concordar!

Pra mim, é simplesmente ponto pacífico “estar lá” para os meus filhos, isso significa que eu acompanho sim, diariamente, tudo o que eles comem, vestem, assistem, cantam, aprendem, choram, etc. E não, não é porque eu tenho ajuda ou coisa do tipo, só eu e minha família sabemos o quanto eu “rebolo” pra conseguir “estar lá” por eles.

Por isso, acho que esta coisa da necessidade de um modelo “palpável” que prove que seu filho está evoluindo na escola, seria completamente desnecessária se cada um dos pais conhecesse e acompanhasse seu filho de pertinho porém, como disse antes, quem sou eu para julgar, não é mesmo?

O que posso fazer diante de tudo isso é, escolher da melhor maneira para os meus filhos e optar pela “lei do menor dano” o que, neste caso, significa que sim, eu aceitei que meus filhos fossem avaliados no método escolar tradicional, mas não aceito que eles decorem conteúdo, que façam provas como robozinhos e que não compreendam nada daquilo que está na prova!

Pra mim, mais importante do que tirar um 10 em uma prova, é eu ter a certeza de que meu filho sabe aquele conteúdo, mesmo porque, venhamos e convenhamos, uma prova não “prova” nada! A criança (ou qualquer pessoa) sob a pressão de um tempo determinado para responder questões pré-determinadas, pode muito bem errar tudo e isso não significa que ela não sabe nada daquilo!

Pra mim, uma prova, seja ela de qual matéria for, só prova a capacidade de auto controle e de trabalhar sob pressão de uma pessoa, não prova necessariamente se ela sabe fazer tabuadas, separar sílabas ou conhece a tabela periódica, por exemplo.

Mas, voltando ao caso do Pedro, ele estava na segunda série, as provas se tornaram mais “sérias” e agora, ele precisava atingir certa média em cada uma das matérias para conseguir ser promovido à próxima série.

Todos os dias eu faço lição de casa com o Pedro, todos os dias ele me faz as perguntas mais difíceis de serem respondidas, todos os dias ele me surpreende com desenhos, esquemas, histórias, idéias e planos super elaborados e que me provam que sim, meu filho está aprendendo muito!

Está apreendendo o conteúdo ensinado em sala e mais do que isso, ele também compreende como este conhecimento pode ser aplicado, sendo assim, não! Eu não preciso de uma prova para me dizer que ele sabe fazer multiplicação, separar sílabas, conhecer as estações do ano e outras coisas.

Ok, agora você pode até estar pensando que eu sou destas mães super protetoras que acham que o filho é sempre o máximo em tudo que faz e sim, eu sou sim e todas as mães deveriam ser! O que não significa que eu desconheça as falhas do meu filho, as coisas que ele precisa melhorar, as coisas que  ele precisa aprender ou mesmo, não me faz ficar cega para a hora em que ele precisar ser repreendido.

Ter orgulho do meu filho não significa que eu não dê limites a ele, e um dos limites que ele aprende todos os dias é respeitar os mais velhos e as normas da sociedade em que ele está inserido. Mas não é respeitar por respeitar, eu explico o porque de cada uma das regras, eu respondo a todas as milhões de perguntas que ele faz sobre cada uma das coisas que ele pode ou não pode fazer, eu garanto que ele saiba bem o porque de cada uma das regras existirem e também garanto que, ao conhecer cada uma delas, ele possa um dia pensar em mudá-las, vai saber?

Parece muito complexo, mas não é! Quando você cria os seus filhos dentro de um contexto de diálogo, amor e compreensão, eles sabem que podem fazer todas as perguntas e podem conhecer os seus limites e respeitá-los, ao invés de temê-los. Mas é claro que isto é o que eu faço dentro da minha casa, e meus “domínios” param por aí!

Eu sei que meus filhos não vão viver pra sempre debaixo da minha asa e por isso, eu invisto nesta educação em casa para garantir que eles saibam conviver na sociedade lá fora, não é nada certo na vida de mãe, e é óbvio que eu tenho meus momentos de medo, mas o que mais eu posso fazer além de dar o meu melhor e ter fé de que isso será o suficiente?

Voltando a escola, durante todo o ano o Pedro trouxe lição de casa, fizemos juntos, aprendemos juntos, rimos juntos, choramos juntos e perdemos a paciência juntos. Tiveram dias em que ele simplesmente não queria estudar, não queria fazer tal coisa porque era chata, porque já sabia, porque estava cansado…

Primeiro, eu me preocupei, mas me lembrei de quando eu me sentia do mesmo jeito e minha mãe me forçava a fazer o que não queria, no fim, eu não entendia nada, fazia por fazer e ia mal nas provas do mesmo jeito então, adotei outra estratégia.

Ao invés de brigar com ele para estudar as matérias e lições que cairiam nas benditas provas, eu dei um aviso: ok, você não quer estudar não precisa, mas saiba que você vai fazer prova amanhã e, se a sua nota vier ruim, não importa o quanto você saiba e não importa que eu sei que você sabe, ter a média é uma REGRA da escola para você conseguir passar de ano então, você quem sabe!

Na primeira vez, ele aceitou este meu “desafio” e resolveu fazer as provas sem estudar, foi bem em todas elas e eu fiquei orgulhosa! Disse pra ele que por mim estava tudo ótimo, porque eu não precisava daquele papel para saber que ele sabia e, que se ele quisesse continuar a fazer as provas sem estudar, tudo bem, desde que ele compreendesse que precisava sempre tirar as notas para ter média.

Na segunda vez, ele levou na brincadeira e daí, vieram as bombas! Ao ler as provas, percebi que tudo o que ele errou, era o que ele já sabia e então, perguntei se ele não achava melhor estudar antes de fazer as provas, só pra relembrar e não acontecer isso de novo.

Ele então, criou seu próprio método de estudos: só estudava para as provas que ele sabia que esquecia ou confundia alguma coisa, para as outras em que ele se sentia mais seguro, me disse que não estudaria mais. Ok, eu concordei mais uma vez e então, ele recuperou as notas que havia ido mal e foi mal nas matérias que ia bem.

O que estava acontecendo?

Pode até parecer muita responsabilidade para um garoto de 8 anos mas, eu só persisti na minha estratégia porque tinha certeza de tudo o que ele estava fazendo e estava acompanhando muito de perto. Com os novos resultados “invertidos”, perguntei pra ele o que ele achava que estava acontecendo de “errado”.

Ele me disse que na hora da prova ficava com pressa, porque tinha medo de não dar tempo daí, acabava respondendo de qualquer jeito, pulava questões, deixava outras incompletas e esquecia muitas coisas então, a primeira coisa que eu fiz foi conversar com a professora para entender se realmente, o tempo estava muito apertado.

Com a conversa, descobri que o tempo estava ok, que ela inclusive, dava uma segunda chance para todos aqueles que não conseguiam entregar a tempo então, sugeri ao Pedro um processo para se acalmar durante as provas: o que você acha de estudarmos juntos, mesmo as matérias que você já sabe pra eu te ajudar a se lembrar das coisas? 

Ele topou, começamos a estudar assim, só as coisas que ele me dizia que se confundia e então, desenhávamos, contávamos estórias e fazíamos mil coisas com aquele tema específico para garantir que ele havia compreendido bem e estivesse pronto para responder. Depois, eu ensinei a ele a respirar fundo, ficar calmo, ler a prova com atenção e responder primeiro as coisas que ele sabia com certeza, pra se concentrar nas mais complicadas por último.

As provas voltaram melhores mas, quando chegou a tabuada de matemática, o problema ficou sério! Nas lições de casa eu descobri que ele não sabia a tabuada decorada, mas sabia fazer as continhas de palitos e compreendia o que “multiplicar” significava, isso pra mim sempre foi o mais importante.

A outra questão sobre a tabuada, especificamente, é que eu, pessoalmente, sempre tive muita raiva de as pessoas exigirem de mim que simplesmente decorasse uma sequência de números. Entenda, eu sei que a tabuada é essencial para conseguir resolver problemas de multiplicação mas, eu considero compreender o que é a multiplicação muito mais importante do que simplesmente decorar uma sequência numérica, até hoje eu não sei a tabuada decorada, mas sei fazer contas de multiplicação, nunca fiquei de recuperação e nunca fui reprovada, nem na escola e nem em nenhum vestibular que me prestei a fazer.

Por causa disso tudo, pra mim era muito difícil aceitar uma prova em que o meu filho precisava seguir uma sequência numérica “vazia” sem nenhum conteúdo por trás disso, sabe? Era muito, muito complicado exigir dele que seguisse uma REGRA que eu sempre quebrei, que eu nunca liguei e que eu considero desnecessária, e agora?

Ser mãe é passar por cima dos seus próprios limites pelo bem dos filhos, e isso significa os seus limites ideológicos e até o que você sabe ou não sabe de matemática! Para conseguir ajudar o meu filho, eu pensei muito em como ensinar a tabuada pra ele, eu sabia que jamais sairia da minha boca a palavra “decorar a tabuada”, eu precisava ENSINAR e isso é mais difícil do que decorar, mas faz muito mais sentido pra mim!

Sofremos juntos mas, conseguimos! Ensinei ele a fazer os pauzinhos no papel direito e sempre que houvesse dúvidas, ensinei a somar a sequência de números e ele ficou tão bom nisso, que a tabuada dele não parava no “10”, ele continuava até cansar, porque havia virado uma diversão!

As lições de casa e trabalhos estavam ótimos, ele estava tirando de letra, nas brincadeiras em casa, ele catava uma folha e ficava fazendo multiplicações e contas de mais e menos só para se distrair e daí, veio a prova, e daí, ele me disse que não estudaria a tabuada porque ele já sabia, e eu sabia que ele sabia e ele não estudou e então… tirou 4,5!

Ele praticamente errou a prova toda! E o pior, ele errou coisas que eu sabia que ele sabia e que ele mesmo sabia que sabia, eu não conseguia entender, onde nós estávamos errando? O Pedro é uma criança super amorosa, mas também é super exigente com ele mesmo e quando as coisas dão errado assim, ele fica nervoso, se cobra e não quer ouvir cobrança de mais ninguém ou seja, fica quase impossível conversar com ele.

Debaixo de muito choro e briga, combinamos que estudaríamos mais as tabuadas e contas para a próxima prova, ele ainda tinha uma chance de recuperar, precisava tirar pelo menos 5 para ter a média e então, ele topou. Estudamos praticamente todos os dias, veio a prova e… ele tirou 3,5!

Socorrooo!!

Eu nem precisei brigar com ele, ele mesmo “desistiu”, reconheceu que seu “método” de estudos para as provas estava falhando e me pediu para começarmos tudo do zero, pra ele entender direito e mais do que isso, pra ele se sentir seguro para responder na prova.

Recomeçamos, ele cedeu e voltou a fazer os pauzinhos, eu reforcei que ele não precisava fazer com pressa e expliquei o que significava ser reprovado na escola: todos os seus amigos avançam uma série e você não, você vai precisar estudar tudo de novo tudo isso que já estudou, só por causa de uma tabuada!

Já sabíamos que ele ficaria de recuperação de matemática e estávamos torcendo para que fosse só desta matéria, os resultados finais vieram e realmente, a primeira recuperação era de matemática! Lá vamos nós, mais uma prova, mais uma semana intensa de estudos e daí, veio a prova e… ele tirou 10!

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O que eu aprendi com tudo isso? Que ensinar o meu filho a persistir, resistir, tentar de novo e de novo e de novo e treinar muito para alcançar objetivos é tão importante quanto alimentar e mantê-lo saudável!

O que ele aprendeu com isso? Que ele pode errar sim, mas que ele também pode acertar, que reconhecer que seus métodos podem ser falhos e procurar se aperfeiçoar também faz muito bem, que a conquista, a vitória “suada”, o objetivo alcançado depois de tanto empenho, traz um prazer incomparável!

Eu continuo odiando provas, continuo com a certeza de que meu filho sabe muito mais do que um 10 possa significar, mas continuo fazendo o que posso fazer: me dedicando, ensinando, acompanhando e garantindo que ele cresça compreendendo que mais importante do que qualquer nota que alguém dê pra ele, é ele ter certeza do que ele sabe, do quanto é amado, do quanto é precioso e único e de que aprender, nunca é demais!

Ufa! Vem terceira série, estamos prontos! ;)

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Comentários

3 comentários via blog

  1. Carolina Vilar comentou em

    Uau! Que texto fantástico. Como sempre te ler me faz te admitar muito.
    Eu odeio matemática. Eu só fui aprender tabuada no Ensino Médio porque fiz Kumon.
    Sempre fui ótima com as palavras (coisa de geminiana?)
    Certeza que o Pedro vai arrasar no 3º ano ;)

  2. vanessa comentou em

    Parabéns pela dedicação, e não apenas por “fazer seu filho passar de série”, mas por ver e rever os seus conceitos, direcionando e apoiando seus filho a criar os dele!

  3. Talita Rodrigues Nunes comentou em

    Nossa, Loreta! Meu filho tem 2 anos e meio e estou um tanto longe dessa realidade, mas me emocionei com o teu relato! Parabéns para o Pedroca e para a mamãe dele!