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Meus filhos bonzinhos

bagagem de mãe

Pedro e Cacá estão naquela idade em que já adquiriram certa liberdade e autonomia, a mais recente delas é o “direito” de ir brincar com os amiguinhos aqui do condomínio lá na quadra e playground, sozinhos!

Claro que, para chegar nesta conquista, eles tiveram treinamento intensivo, muita conversa, muito “pode e não pode”e tudo mais. E eu adoro ver eles com os amiguinhos, ver como eles se comunicam, brincam, se divertem, se preocupam em não desobedecer…

Não quero ostentar, mas não posso deixar de corujar, sabe? Pedro e Cacá são conhecidos aqui no condomínio como “os bonzinhos”. Por que vocês sabem, né? Quando junta uma turma de crianças dentro da mesma faixa etária, eles pegam fogo!

E haja zelador reclamando, síndico dando bronca geral, vizinho torcendo o nariz quando passa…

No meio do grupinho deles tem o “terrível”, “as espoletas” e “os bonzinhos”, que no caso são o Pedro e a Cacá. E é claro, eu adoro ouvir os vizinhos elogiando, dizendo como o Pedro é gentil segurando o elevador para os “idosos” (como ele mesmo diz), conversando com os cães que passeiam lá por baixo, obedecendo o zelador, seguranças e tals…

Acontece que, ser “o bonzinho” ás vezes, pode ter desvantagens! O Pedro e a Cacá, por serem os bonzinhos são os que mais têm “crédito” com os mais velhos ou seja, são “usados” pelos coleguinhas para barganharem pedidos com os outros pais, com o pessoal do prédio..

Também são eles, “os bonzinhos”, quem se dispõem a emprestar todos os brinquedos que eles têm, a subir e descer escada o tempo todo para levar pra baixo qualquer coisa que qualquer amigo peça, pra emprestar blusas quando chove, pra vir buscar lanchinhos quando todos estão com fome…

No começo eu perguntei pra onde iam todas aquelas coisas, pra onde iam as blusas, brinquedos, lanches, pra quem e por que. Fiquei observando e meio sem coragem de cortar a “onda” deles já que eles ficavam mega felizes de fazer estas coisas pelos amigos. Até que…

Catarina subiu chorando e sem o seu patinete, perguntei o que tinha acontecido e ela me diz que um dos amigos pediu o patinete dela para brincar, ela emprestou, ele não devolveu mais, ela ameaçou subir, ele deu de ombros e não devolveu mesmo assim…

Antes que eu pudesse intervir, chegou o Pedro carregando o patinete resgatado! Conversei com os dois e expliquei que eles podiam sim emprestar os brinquedos e as coisas para os amigos mas, que precisavam também se impor ao pedir de volta. Que quando eles não quisessem emprestar, não precisavam e que não tinham que se preocupar se os amigos ficariam chateados, ou cair na chantagem deles…

Os dois disseram que entendiam, mas que apesar de falarem, os amigos ainda não os escutavam e quase sempre a questão terminava com alguém chateado/chorando!

Eu não quis intervir porque penso que as crianças precisam ser capazes de resolver seus problemas (desde que seja pelo diálogo, claro!) e esperei que depois da conversa que tivemos, eles conseguiriam lidar com isso.

Ok, passou! Parecia que a Cacá havia resolvido esta questão, mas o sobe e desce aqui em casa pegando brinquedos e blusas e entrando e saindo crianças começou a ficar muito esquisito!

Desci sem avisar eles pra dar uma olhada na situação e quando cheguei lá, descobri que as outras crianças não levavam todos os brinquedos para baixo, só quem levava tudo e mais um pouco eram “os bonzinhos”.

Conversei de novo com os dois, perguntei por que os outros não levavam, eles me explicaram que os pais não deixavam levar e daí, eles levavam pra eles poderem brincar!

Hummm, fiquei pensando…

Qual a grande implicação em levar brinquedos para baixo? Por que os outros pais não deixavam? Seria por causa da bagunça? Seria por medo de que as outras crianças quebrassem os brinquedos de seus filhos? Qual a grande questão aqui e por que isto também estava me incomodando?

Esperei, passaram-se alguns dias, descobri que ficava irritada simplesmente porque, na hora de descer todos os brinquedos da casa, todos os amiguinhos vinham aqui ajudar a descer, de pouquinho em pouquinho e na hora de recolher, todos sumiam e deixavam “os bonzinhos” carregando tudo sozinhos!

Dei a maior bronca nos dois, disse que não queria mais saber daquele monte de brinquedos descendo e nem daquele monte de criança entrando e saindo com as coisas deles, e que eles não tinham que ficar emprestando e fazendo tudo o que os amigos deles pedem!

E os dois me olharam com a maior cara de “miga, cê tá loka?”, porque assim, eu sempre fui aquela que encorajou as brincadeiras, aquela que encorajou a compartilhar, a ser solidário, a criar sem limites, a brincar muito, correr muito, subir, descer, fazer teatro lá embaixo, brincar de patinete, skate, bola, bonecas…

E agora eu estava “dando destas” de dizer que não podia mais brincar nem levar e emprestar os brinquedos? Oi?

Pois é, a Catarina me perguntou se os brinquedos são dela por que eles tinham que obedecer “as minhas regras”, encerrei a questão de modo autoritário dizendo que era porque ela tinha que me obedecer e logo, os brinquedos dela também!

Tudo errado!

Depois de muito matutar tudo isso, disse pra eles a real sobre o que me incomodava ao ver aqueles brinquedos, roupas e lanches descendo. Falei sobre amizade e reciprocidade e entendi que eu estava com medo de os meus filhos serem feitos de “trouxa” como EU sempre senti que acontecia COMIGO mas, percebi que eu estava projetando NELES e nas relações de amizade DELES, coisas que aconteceram COMIGO e que não têm nada a ver com eles!

Claro que eu não disse tudo isso a eles, eles não entenderiam mas, deixei claro os meus medos, preocupações e observações. Eles entenderam e fizemos um acordo: todo mundo podia continuar a subir pegar brinquedo, blusa, lanchinho desde que, eles também pudessem fazer o mesmo na casa dos amigos, desde que os amigos os ajudassem a trazer de volta todos os brinquedos que desceram e desde que os amigos respeitassem quando eles dissessem que queriam os brinquedos de volta!

Estamos falando aqui de uma turma de crianças que têm entre 7 e 10 anos ou seja, eles entendem todas estas coisas sim e assim, confiei que os meus filhos observariam tudo isso e chegariam a uma decisão. Eu não roguei praga e juro que não fiquei esperando que eles se frustrassem mas, aconteceu!

Ao perceberem que os amigos não estavam correspondendo ao combinado, eles mesmos criaram regras para os brinquedos que descem, as blusas, os lanches… não precisei dizer mais nada!

Eu ainda não entendo porque os outros pais não deixam as crianças descerem tantos brinquedos, fazerem lanchinhos, etc. Mas já que eu sou a única mãe que deixo, ganhei o posto de mãe mais legal, e gostei! rs

De vez em quando, deixo a trupe toda subir aqui pra fazer sessão de cinema ou oficina de Lego, outras vezes eu desço, e participo dos jogos de bola, brincadeiras de skate, patinete, bicicleta… E quase sempre me sinto desnecessária!

O que antes me assustava e afligia, hoje me deixa orgulhosa porque no final, acho que um bom trabalho como mãe é este mesmo, o de ser desnecessária, o mais desnecessária possível! Afinal, eu quero que os meus filhos sejam capazes de resolver seus problemas e viverem felizes com seus amigos e o resto do mundo, sem que eu precise intervir!

E quando eles me chamam pra brincar junto, pra estar junto, pra fazer alguma coisa junto, não é porque precisam, é porque me querem por perto, e isso é muito mais legal!

No final, acho que ter os filhos “bonzinhos” do condomínio é a melhor coisa do mundo e aprendi que esta coisa de ter medo de ser bom é algo da nossa cabeça baseada em nossos próprios medos e frustrações.

Então, será que é preciso ensinar certa malícia para as crianças?

Ainda não tenho uma resposta 100% segura já que tudo isso é relativamente novo pra mim, mas escolhi confiar no discernimento e valores morais que eu passei aos meus filhos até agora e confiar que sim, somos bons, e somos maioria!

Bjs! ;)

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Comentários

1 comentário via blog

  1. Elianai comentou em

    Que lindo Loreta, tenho uma filha também de 12 anos que também é uma filha onde os outros meio que se aproveitam e desde os cinco anos que percebo isso e só agora que conseguir parar de intervir nestes problemas de imposição, e deixo ela resolver.. ela ainda é bobinha em relação a dizer não se impor mas vai chegar lá.. Mas amei seu artigo. E vou pegar estas dicas para aplicar na minha pequena Ester de dois anos de pequeno vai ao grande. Bjs Loreta