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Barriga de Mãe

Aqui em casa, desde que as crianças nasceram, nunca me preocupei (ou nunca consegui) fechar as portas para tomar banho ou me trocar assim, estamos sempre vendo uns aos outros mudando de roupa e isso sempre aconteceu com muita naturalidade.

Outro dia, estava me trocando no meu quarto enquanto o Pedro estava deitado na minha cama jogando no meu celular. De repente, ele começou a fazer perguntas sobre a minha barriga de mãe, foi mais ou menos assim:

-Mãe, o que são estes dodóis na sua barriga?

-Quando você morou aqui dentro, minha barriga cresceu tanto que a pele rachou..

-Dói?

-Não, na época incomodou um pouco, agora não mais!

-Todas as mães têm a barriga assim?

-Algumas sim, outras não…

-A culpa é minha? Fui eu que fiz isso com você?

-Claro que não, filho! Estas são as marcas do maior esforço que o meu corpo já fez, e eu faria tudo de novo pra ter você aqui comigo!

-Você acha ruim ter estas marcas?

-Sabe todas as marcas que você tem na canela das quedas quando você estava aprendendo a andar de skate?

-Sei..

-Você pode até achar elas feias, elas podem ter doído e você pode não gostar delas, mas elas estão aí porque você se esforçou pra aprender a andar de skate, são a história do seu esforço! E sua recompensa é saber andar de skate, não é?

-Sim!

-Então, estas aqui são as minhas marcas, as marcas do meu esforço! E a minha recompensa é ter você aqui comigo!

-Eu te amo, mãe!

-Também te amo, filho!

Pode até parecer que eu respondi tudo isso cheia de segurança e certezas, mas a verdade é que eu fui pega de surpresa com a pergunta e a medida que ele ia falando eu ia respondendo pensando na minha FUNÇÃO DE MÃE!

Quer dizer, eu fui respondendo pensando que precisava dar BOAS RESPOSTAS, respostas que mostrassem ao meu filho que era importante se aceitar, se amar, amar a sua caminhada, o seu esforço e principalmente, que como você é por fora não determina quem você é por dentro.

Mas daí, aconteceu uma destas coisas mágicas que a maternidade faz com a gente…

Conforme eu fui pensando e respondendo, eu fui entendendo que aquilo que eu estava falando pra ele não era “da boca pra fora”, eu não estava apenas respondendo o que era melhor para ele ouvir, eu estava contando pra ele a verdade, a minha verdade!

Quando ele saiu do quarto, depois de me dar um abraço satisfeito, eu ainda passei um tempo me olhando no espelho e pela primeira vez, em quase 10 anos de maternidade, eu me amei! Amei a figura refletida que me olhava com um sorriso sincero.

Sim, demorou todo este tempo para eu me aceitar! Quando as primeiras estrias apareceram na minha barriga eu fiquei muito chateada! Não importava a quantidade enorme de óleos e cremes que eu passava, não importava que eu estive super cautelosa com a minha alimentação, elas surgiram e não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso!

Nos meses seguintes ao nascimento do Pedro, eu estava tão ocupada com as novidades de ser uma mãe de primeira viagem, que quase não me preocupei com a minha aparência. Não tinha tempo pra isso!

Quando as coisas se normalizaram, eu me olhei no espelho e não gostei de nada! Eu havia ganhado muitos quilos, que eu sabia que conseguiria eliminar aos poucos. Mas aquelas marcas, elas seriam eternas!

Procurei soluções em tratamentos estéticos, já que a cirurgia plástica nunca foi uma coisa que eu considerasse a sério (eu acho que é meio radical, sabe?) e depois de muitos choques, agulhadas e queimaduras com ácidos, vi pequenas melhoras mas nunca mais a barriga lisinha e perfeita que já teve até piercing no umbigo.

Eu sofri, chorei, tinha uma foto de biquíni de antes da gravidez que vivia dentro do meu armário, como um lembrete quem eu já havia sido um dia…

Num acesso de raiva, dei embora todas as minhas roupas, vestidos e afins que fossem mais decotados ou mostrassem qualquer pedacinho de barriga, já que nunca tive o hábito de andar com a barriga completamente de fora…

Eu odiava aquela barriga nova! Odiava olhar no espelho e vê-la, achava que nada mais ficaria bom, que nunca mais eu seria BONITA de novo…

Comecei a usar cintas, modeladores, bodies, mudei o meu guarda-roupas e estava ansiando pelo momento em que eu finalmente VOLTARIA a ser quem era ANTES da gravidez. Mas este momento nunca chegou!

Porque, por mais clichê que isso possa parecer, quando nasce um bebê, nasce uma mãe! Ou melhor, a gente morre, e renasce! Nunca mais seremos as mesmas e num primeiro momento a gente custa a entender e aceitar isso, a gente tem medo, muito medo!

E neste desespero a gente olha para as coisas mais VISÍVEIS e acha que são elas as grandes MUDANÇAS que aconteceram. Daí, a gente se agarra nesta verdade que criamos para nós mesmas e fica acreditando que se a gente conseguir deixar aquilo ali de volta ao que era antes, tudo vai ficar bem!

Mas não vai!

Porque por mais que eu topasse fazer uma cirurgia plástica que removesse daqui todas as minhas estrias e me devolvesse a minha barriga lisinha e perfeita, as verdadeiras MARCAS de mudança ainda estariam na minha alma! E estas, não há cirurgia, cremes ou tratamentos que removam!

Eu comecei a pensar que, se aquelas marcas na barriga aconteceram depois de eu ter feito a melhor coisa que já fiz na vida, que é ser mãe, por que elas eram tão dolorosas? Por que elas eram uma “punição”? Eu estava estava sendo punida por ser feliz? Eu estava feliz?

Foram alguns anos de reflexão, mudei de idéia várias vezes, escondi, mostrei, tive orgulho, tive vergonha… E finalmente eu entendi que as marcas têm o tamanho, formas e cores que a minha alma lhes dá.

Quer dizer, é como eu me vejo que me diz se há beleza ou feiúra ali, é como eu me aceito que me diz se haverá leveza ou um peso a ser carregado. E eu decidi ser bonita por dentro, e deixar esta beleza refletir no meu exterior!

E é claro que tem dias que eu acordo e odeio tudo o que vejo no espelho, é claro que tem dias que eu queria a barriga lisinha e outras coisas de antes de volta, mas na maioria das vezes eu simplesmente aceito que agora, sou muito mais feliz com quem eu sou e onde estou do que jamais imaginei que poderia ser. E isso só é possível porque estou em paz com minhas escolhas e com a minha trajetória até aqui!

É claro também, que ainda estou no início do caminho, não alcancei toda a beleza interior que eu gostaria, talvez nunca alcance nesta vida! Mas gosto de acreditar que estou no caminho certo! E na verdade verdadeira, o que me libertou foi entender que a primeira pessoa a quem eu devo agradar sou eu mesma! E não aos outros!

Então, eu resolvi compartilhar esta história aqui porque muita gente (a maioria de nós, não é mesmo?) julga o livro pela capa! Nunca saberemos exatamente pelo o que o outro está passando, qual foi a estrada que ele percorreu para chegar onde está e mesmo assim, sempre nos achamos cheios de direitos de apontar dedos e dizer “verdades”.

Eu recebi alguns emails e comentários falando que para mim era FÁCIL falar de aceitação já que sou MAGRA e isso me deixou incomodada. Óbvio que fiquei incomodada pela pedrada gratuita que estava tomando, mas mais do que isso, fiquei incomodada e triste com o fato de tantas mulheres associarem felicidade com aparência física, com o peso na balança, com o corte de cabelo…

A verdade é que esta é uma barriga de mãe, como a de muitas outras mães por aí, e tá tudo bem! Você não precisa estar em forma no puerpério, você pode estar cansada, pode ter olheiras, pode ter ganhado peso, ficado flácida ou com estrias! Você pode ser o que você quiser!

E eu não digo isso com a leviandade de quem não precisou passar por nada muito difícil na vida, eu digo com a PROPRIEDADE que todas nós, MULHERES que passamos pela experiência da maternidade, temos direito. Seja com ou sem marcas físicas aparentes!

Ao ensinar aos meus filhos sobre amor próprio e auto-estima, eu aprendi muito mais do que imaginei que pudesse transmitir. Eu aprendi que o meu corpo não me define, as minhas marcas não me definem, mas elas fazem parte de mim, de quem eu sou, da minha história!

Este corpo aqui é o meu templo, a minha “casca”, que chegou comigo a este mundo e vai comigo até o final e por isso, merece ser respeitado! E se ele foi capaz de gerar 2 coisas tão lindas e milagrosas, que eu amo muito mais do que a mim mesma, ele certamente também é digno de amor e carinho!

Então, se você anda triste com a sua barriga, com a sua forma, com as suas mudanças, acredita em mim, esta turbulência toda vai passar e você vai enxergar a pessoa linda que você é!

E sim, é claro que você tem todo o direito de estar chateada, de não querer nada disso, de querer voltar a ter pelo menos o mesmo corpo de antes. Mas certifique-se de que tudo isso seja importante pra VOCÊ e não porque os OUTROS estão dizendo, não porque a sua amiga que engravidou junto com você já postou foto magrinha e com a barriga lisinha, não porque parece que todo mundo está mais bonito e mais feliz e levando a vida com muito mais facilidade do que você porque, acredita em mim, eles não estão!

Faça o que você tiver que fazer para ser feliz por VOCÊ e acima de tudo AME-SE! Você vale a pena, você importa! E é somente quando nos amamos, aceitamos e toleramos que podemos praticar o mesmo com os outros, inclusive com nossos filhos. Pensa nisso! ;)

barriga de mãe

 

PS: esta foto e meio texto foram publicados originalmente no meu Instagram, como resposta aos “ataques” que havia sofrido. A repercussão foi tão incrível e tão positiva, por meio de mensagens privadas e comentários públicos, que decidi que era merecedora da história completa! 

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