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A maternidade e o Doutor Google

Às vezes, fico aqui pensando como era ser mãe antes da internet! Eu cresci nos anos 90, usei muito a Barsa para trabalhos escolares mas, desde a minha sétima ou oitava série do ensino fundamental, fui apresentada ao Google, e nunca mais precisei tocar nas aposentadas enciclopédias.

Quer dizer, eu praticamente cresci usando o Google como consultor de qualquer coisa que eu quisesse saber no mundo, claro que, com o tempo de uso da ferramenta, os estudos na escola e depois faculdade, a gente vai aprendendo a filtrar as informações que esta imensa e inesgotável biblioteca virtual nos apresenta, mas a bem da verdade é que o jargão “joga no Google!”, faz tanto sentido pra mim quanto “pergunta pra sua mãe!” deveria fazer para a minha mãe!

Nem quero entrar em outras histórias pessoais porque, o post hoje não é pra falar sobre isso mas, especialmente no meu caso, que nunca pude contar com a minha mãe para perguntar qualquer coisa relativa a maternidade, o “doutor Google” sempre foi conselheiro, rota, direção, janela do mundo…

Toda mãe que se preze, que já se aventurou em jogar uma dúvida qualquer no “doutor Google”, viveu a experiência de encontrar 1 milhão de informações desencontradas e de repente, perceber que uma dúvida pequenina, se transformou em uma angústia gigante digna de apocalipse zumbi!

É ou não é?

Eu percebi que consultar o “doutor Google” não era uma boa durante a gravidez do Pedro, depois de sofrer 2 abortos espontâneos antes da chegada dele (contei AQUI), eu praticamente dormia e acordava, durante os quase 9 meses de gestação, com medos e dúvidas na cabeça, e as consultas ao tão “prestativo” e “disponível doutor”, estavam me deixando cada dia mais nervosa, ansiosa e aumentando muito os grilos na minha cabeça!

Levei a maior bronca da minha obstetra que me proibiu de consultar o Google e assistir estes programas de gestação, parto e recém nascidos na TV. Ela disse que todos eles eram estrangeiros, traduzidos de qualquer jeito e com edições horrorosas e tendenciosas, enfim, não serviam para nada!

Segui o conselho dela mas, quando o Pedro nasceu, eu caí de novo nas garras do “doutor”, qualquer coisinha com o meu recém-nascido, lá ia eu perguntar para o “doutor Google” se era tudo normal, saía da frente dele quase 2 horas depois com uma lista imensa de perguntas para o pediatra, e mais confusa do que cego em tiroteio!

Depois de 8 anos de maternidade, e muita experiência como usuária de internet e mãe blogueira, era de se esperar que eu estivesse “vacinada” contra as armadilhas deste “doutor” maaaaassss, não é bem assim! :(

É óbvio que eu ainda uso muuuuito o “doutor Google” e, apesar de filtrar muito toda a informação que eu encontro, checar as fontes, comparar conteúdos e tudo mais, não estou imune de ficar com muito mais medo, angústia e dúvidas depois de uma “consultazinha” com este “doutor”.

Foi o que aconteceu há 3 meses…

O Pedro nasceu prematuro, passei os 3 primeiros anos da vida dele, preocupada com seu desenvolvimento depois, preocupada com seus problemas pulmonares (asma), depois com suas alergias, depois descobrimos a hérnia umbilical, depois tive medo de ele estar anêmico por causa da curva de crescimento e, em todos estes momentos, eu juro pra vocês que me mantive calma, controlada, e certa de que as informações que eu estava recebendo de especialistas (de verdade) eram as mais confiáveis (como realmente foram), sem a necessidade de checar nada com o “doutor Google”.

Mas desta vez, foi tudo diferente!

Há 3 meses, a professora do Pedro nos chamou na escola (eu e o pai) para uma reunião, ela queria falar sobre o desenvolvimento dele e uma outra coisa que a estava preocupando. Quando a gente recebe um chamado assim da professora, já fica com a pulga atrás da orelha, né?

Na reunião, ela nos contou que ele estava indo muito bem, compreendendo e apreendendo todos os conteúdos, que sua dificuldade com a fala (língua presa) estavam melhores graças ao acompanhamento da fonoaudióloga mas, que ela percebeu que ele tinha as mãos trêmulas.

Segundo ela, ele tremia muito para escrever as lições em seu caderno, na lousa e, às vezes, até mesmo em alguma brincadeira com os colegas. Ela achou melhor não comentar nada com ele pois, não queria constranger ele mas, ficou preocupada e decidiu nos perguntar se ele tinha algum tipo de problema neurológico ou coisa do tipo.

Muito antes de a professora nos chamar para falar sobre isso, eu já havia notado que ele tremia, às vezes, para fazer a lição de casa, às vezes, também tremia para colocar um suco no copo, acertar um objeto em algum espaço pequeno e etc.

Quer dizer, eu já o tinha visto tremendo as mãos mas, sempre em situações em que ele se encontrava sob pressão (na lição de casa, sendo observado por mim) ou quando a atividade exigia dele maior concentração e habilidade de coordenação motora fina específica (colocar o suco no copo e etc.) e por isso, julguei com a minha intuição de mãe, que se tratava apenas de ansiedade, normal a todos nós e ainda mais a ele, que tem uma personalidade super perfeccionista e minuciosa em tudo o que faz.

Mas quando a professora nos chamou para falar sobre isso, a pulga atrás da orelha virou um monstro de sete cabeças! Qual mãe não se abalaria ao ouvir as palavras DOENÇA NEUROLÓGICA a respeito de seu filho? Qual mãe não sairia correndo consultar o “doutor Google” desesperadamente?

Pois é…

Fui consultar o “doutor” e vejam bem o que me apareceu:

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Esclerose múltipla, doença de Parkinson, Doença de Huttington, deficiência nutricional, doenças degenerativas no cérebro, doenças degenerativas na medula espinhal e mais um monte de coisas! Quase enlouqueci!

Aqui em casa, a “mais forte” e racional sou eu, o marido é mais “desesperado”, mas passional e daí, como vi que ele estava muito tenso com tudo isso, engoli o choro e resolvi criar uma estratégia “racional” para lidar com esta bomba que tinha acabado de cair na minha cabeça!

A primeira coisa que fiz foi marcar a consulta com o pediatra dele, eu já sabia que não conseguiria a consulta tão rapidamente, o pediatra é bem concorrido e, como eu previa, minha consulta foi agendada para quase 40 dias após a ligação. Neste meio tempo, resolvi passar a observar mais de perto o meu filho, ver quando, como e onde ele tremia, em qual situação se encontrava quando isso acontecia, e fui anotando para contar ao pediatra.

Ele tremia quando fazia lição de casa, as mãos tremiam quando ele apontava o lápis para o caderno mas, ao iniciar a escrita, o tremor sumia e a letra saía sempre linda e perfeita. Ele tremia para colocar o suco no copo, mas só se a jarra ou caixa de suco estivesse muito cheia e então, eu pensei que poderia ser o peso + a concentração. Ele tremia para levar um garfo à boca, mas só quando estava com pressa para sair da mesa, eu pensei que pudesse ser ansiedade…

Ele não tremia quando tocava bateria, segurando as baquetas, ele não tremia quando brincava de Lego, que possui peças bem pequenas e exigem maior concentração e coordenação motora fina, ele não tremia para desenhar à mão livre, ele não tremia para usar os pincéis, ele não tremia no jogo de botão e definitivamente, não tremia para jogar video game.

Me agarrei na minha intuição de mãe que me dizia que aquilo não era nada, que podia ser só ansiedade mesmo, alguma insegurança ou coisa do tipo mas, toda noite, depois que ele dormia, eu ia lá, no quarto dele, me sentava na beirada da cama e chorava baixinho, pedindo a Deus que não permitisse que ele sofresse, que passasse por osmose pra mim, qualquer coisa que pudesse machucar o meu pequeno.

Nestes 40 dias de sufoco, eu alternava entre dias em que estava especialmente segura e tranquila, e dias em que estava com muito medo mesmo! O marido, chorava escondido no cantinho, preocupado, tenso, estressado…

Finalmente chegou o dia do pediatra, o que pensamos que seria um alívio, virou nova tortura! Na avaliação clínica, ele nos disse que não encontrava nenhum sinal de qualquer doença neurológica e que o tremor das mãos dele eram muito suaves e comuns mas, ele não era especialista e por isso, nos encaminhou para um neurologista infantil.

Saí do consultório mais angustiada do que entrei, meu lado racional sabia que o médico estava certo em não emitir uma opinião 100% acertada, já que ele não era mesmo especialista mas, meu lado mãe, gritava de raiva por ele não ter me dado conforto e nem ter dito o que eu queria ouvir: “seu filho não tem nada, ele é perfeito e saudável!”

Marquei a consulta com o neurologista ainda no carro, mais 1 semana de espera! No dia da consulta, o neurologista o avaliou clinicamente, fez alguns testes, aproveitou que estávamos todos lá (eu, papai, Cacá e Pedro) e fez uns testes com todos nós, no final, nos disse que achava que se tratava do que chamam de tremores hereditários.

São leves tremores nas mãos, de causa desconhecida mas que, é transmitido geneticamente e não evolui ou atrapalha em nada a vida de quem o possui. O tremor continua igual por toda a vida, podendo se agravar em momentos de ansiedade, tensão ou estresse e desaparecer na fase adulta.

Lá no consultório, descobrimos que todos nós, da família, temos um leve tremor nas mãos, até mesmo a Cacá. De toda forma, o médico pediu um exame de ressonância magnética de crânio para descartar qualquer suspeita de anormalidade e nos deixar mais tranquilos.

Depois desta consulta, saí um pouco mais aliviada mas, eu sabia que só ficaria completamente tranquila depois do exame e por isso, passei pela nova peregrinação: encontrar um laboratório que fizesse a ressonância magnética de crânio em crianças.

Eu não queria que meu filho sofresse com nenhum tipo de exame doloroso e, se não houvesse alternativa, queria que ele fizesse isso no melhor lugar possível. Recorri ao “doutor Google” de novo para entender o que era e como funcionava um exame de ressonância magnética, descobri que ele é bem menos nocivo do que um raio X, por exemplo, e apesar de delicado, é bem simples. Prometo falar mais detalhadamente sobre ele em outro post! ;)

Escolhi o laboratório, marquei o exame, mais 15 dias de espera, mais 15 dias velando o sono do pequeno, mais 15 dias chorando de madrugada, mais 15 dias tentando ser forte e usando a minha máscara de “tá tudo bem!”, e bora me afundar no trabalho e nos preparativos da festa de aniversário dele, para ocupar a cabeça!

No dia do exame, coração na boca, dor de barriga, dor de cabeça, angústia, e o sorriso no rosto tentando transmitir toda paz, tranquilidade, serenidade e segurança pra ele. O hospital que escolhemos é especialista em crianças, e toda a sua equipe também, graças a isso, o Pedro não precisou ser sedado para o exame e a equipe foi super paciente com todas as perguntas e “remelexos” do meu pequeno.

Lá no exame, nós esperávamos que o técnico já pudesse nos dizer se estava vendo algo anormal, mas descobrimos que teríamos mais alguns dias de sufoco pela frente já que, a avaliação é feita por um médico neurologista que emite um laudo após análise do exame.

Com a nossa insistência, o técnico nos disse que não percebeu nada de anormal, mas que deveríamos esperar pelo laudo. Mais 10 dias…

Neste tempo eu fiquei pensando, claro que, se aparecesse alguma coisa neste exame, se fosse confirmado alguma doença no meu filho, eu continuaria a amá-lo como sempre e lutaria com todas as minhas forças para fazer tudo o que eu pudesse e não pudesse para que ele ficasse bem, para que não sofresse.

Resolvi encarar tudo desta forma: eu tinha certeza, no fundo da minha alma e do meu coração de mãe, de que não era nada mas, se por acaso o meu amor (ou o meu medo) estivessem me confundindo, eu lutaria pelo meu filho, eu encararia de frente qualquer que fosse o obstáculo e pronto! Estava resolvido, chega de sofrer!

Tão fácil falar, tão fácil planejar, tão difícil colocar em prática….

Um dia antes do resultado do exame, eu já havia mandado uns 2 emails para o laboratório pedindo o laudo, a atendente foi bem delicada quando me pediu que aguardasse pelo prazo combinado… No dia certo, recebi via email o laudo, estava no trânsito, recebi a notificação no celular, parei no farol, vi que era do laboratório, estacionei o carro e resolvi abrir ali mesmo o documento anexo.

No laudo médico, algumas palavras difíceis e complicadas mas, no final o tão esperado “nenhuma anormalidade encontrada”, estava lá!

UUUUUUUFAAAAAA!!!

Comecei a chorar ali mesmo e precisei de uns 10 minutos para me recompor, liguei para o marido para dar a notícia, ele estava no meio de uma reunião e também precisou de 10 minutos para respirar e tirar das costas este elefante colorido que estávamos carregando!

Marcamos o retorno no neurologista, ele avaliou o exame, refez algumas avaliações clínicas, alguns testes com o Pedro e nos disse para ficarmos tranquilos, voltarmos anualmente para acompanhamento e é claro, procurá-lo caso acontecesse alguma outra coisa.

O que eu aprendi com tudo isso?

Que mães precisam ter nervos de aço, cabeça lúcida e coragem de Hércules para exercerem a maternidade! Que o “doutor Google” não é uma fonte confiável de referências e informações e por isso, sempre cheque as fontes consultadas e quando se tratar de saúde, procure um médico, por favor!

Que escrever um blog é muita, muita responsabilidade porque eu sei que, este texto aqui, também estará fazendo parte da grande enciclopédia do “doutor Google” e por isso mesmo, eu resolvi escrevê-lo.

Se você chegou até aqui por que está preocupada com algum tipo de tremor ou doença neurológica do seu filho (ou sua), por favor, entenda que este é um relato pessoal de uma experiência que eu vivi, que nenhuma pessoa é igual a outra e que somente um médico especialista poderá te ajudar, de verdade!

Para as minhas leitoras e seguidoras de sempre, me desculpem o longo texto, eu quis contar assim, timtim por timtim pois, foram vocês que me deram tanto carinho e apoio lá pelo instagram (@bagagemdemae) nestes dias em que eu estava com toda esta dor no meu peito! Eu precisava explicar direito o que estava acontecendo e principalmente, precisava agradecer todo o amor que eu e o Pedroca recebemos, muito obrigada mesmo! <3

E agora, bola pra frente! Porque eu tenho certeza que este não será o último susto nesta jornada longa, louca, desafiadora e deliciosa que é a maternidade!

Bjs ;)

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Filhote amado, por você, toda a minha vida e o que mais eu puder oferecer! Moya dusha <3

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Comentários

3 comentários via blog

  1. Larissa Andrade comentou em

    Que bom saber que está tudo bem!! Por mais que tenhamos que ser forte na maternidade, a nossa sensibilidade fica mais acentuada, né?! A minha então rsrs. Confesso que me emocionei só em ler teu relato, em especial, na hora que vc parou pra se recompor <3
    Ah… também sou da época das enciclopédias rsrsrs
    Beijos pra vcs,

    Larissa Andrade.

    1. Loreta Berezutchi respondeu Larissa Andrade em

      Affff a gente vira tudo manteiga derretida, né? hahahaa Obrigada pelo carinho!! <3 Bjs ;)

  2. Camila Bubolz comentou em

    Ahhhh G.raças a Deus não é nada…mas a gente quase morre né? Eu vivo no google tb… não adianta, não tem como evitar! O Pedro é lindooooo!! Minha Maricota tb é prematura, a gente vive preocupada! <3
    bjssss